Sobre vício em açúcar
Ou ainda: açúcar é uma droga social, como outra qualquer
Foi talvez Gary Taubes , o pai do low-carb (dietas de baixo carboidrato) contemporâneo, quem me fez abrir os olhos ao vício ao açúcar. Falo “abrir os olhos” porque não é difícil você se deparar com profissionais de saúde que negam a existência desse vício. São os mesmos profissionais que não leram o livro mais importante escrito na Nutrição nos últimos 50 anos, de Taubes, “Good Calories Bad Calories”.
Taubes defende o que a maioria dos nutricionistas ignora: perder peso não é resultado de consumir menos calorias ou de ter maior força de vontade em gastá-las, mas de escolhas alimentares sobre o que comer.
E temos um enorme problema quando um alimento muito engordativo, o açúcar, pelo seu poder viciante impacta justamente nossa capacidade de escolher corretamente o que comer. Por quê? Porque ele é viciante como uma droga ilícita. Sim, você leu certo.
*****
Até 1985 a diretriz americana dizia ser seguro consumirmos até 25% das nossas calorias diárias via açúcar. Sim, você leu certo mais uma vez! Para complicar ainda a questão do vício, as pesquisas na área são complicadas. Pois como viciar voluntariamente alguém? Tente você conseguir autorização para oferecer açúcar e cocaína a crianças em nome da ciência. Ou aplicar heroína, açúcar e morfina em adultos em nome da saúde. Tente. Difícil, não?
Porém, quando visto com calma, não é difícil aceitar que a cocaína na forma proibida, ou seja, em pó e refinada, é muito mais perigosa (e viciante!) do que sua versão em folhas de coca, consumidas legalmente na Bolívia sem graves efeitos colaterais sociais, por exemplo.
Raciocínio similar valeria para o açúcar? Ou seja, refinar carboidrato em açúcar o tornaria mais potente? Por que não?
Pois bem, pesquisas feitas com ratos observou que 92% deles deixam o vício da cocaína de lado em apenas 2 dias para trocar por água com açúcar! Aliás, essa troca só não ocorreu com heroína! Isso porque o consumo de açúcar (mesmo na forma de suco de uva!) libera dopamina e seu consumo regular faz que você precise cada vez mais dele para gerar a mesma satisfação. É como qualquer outra droga ou vício (em jogo, sexo, pornografia, cafeína…). Ainda que com outro poder, é cíclico, é viciante, é mais forte que nossa força de vontade.
Em seu belo livro “The Fat Chance” (ignorado nas faculdades brasileiras!) Robert Lustig nos apresenta que existem 7 critérios (tolerância, abstinência, desejo, compulsão…). Para definir algo como viciante a substância tem que dar positivo em 3 ou mais. E açúcar cumpre esse requisito tanto em ratos quanto em macacos.
Acontece que aceitamos que o refrigerante mais conhecido do mundo não tenha mais cocaína, porém, o que pouca gente sabe é que essa retirada não impactou suas vendas 100 anos atrás, uma vez que o açúcar fosse mantido! Você pode alegar que era uma questão de gosto. As pesquisas dizem que é algo mais. Não só ela, a própria indústria sabe disso. Empresas de cigarro na metade do século passado passaram a injetar com sucesso açúcar nos cigarros com explosão nas vendas. A história passa ainda pela criação da mais conhecida marca de cereais matinais. O seu braço que era contra açúcar no desjejum infantil, quebrou. Já aquele que desenvolveu a técnica pioneira de borrifar açúcar neles, é a maior do mundo no setor até hoje. Isso funciona com tudo. Não pode ser apenas gosto. Tem que haver algo mais do que coincidência.
Temos no açúcar uma droga lícita e social que te faz agir irracionalmente em suas escolhas alimentares, uma vez que você ignora o mal que ela faz à sua saúde em troca do enorme prazer imediato que proporciona. Você não vai conhecer ninguém viciado em rabanete ou escarola. Porque ali o que há é carboidrato mais complexo e com muita fibra. Mas uma bomba de chocolate macia tem muito açúcar e/ou carboidrato refinado (farinhas). E isso te faz agir de modo viciado.
Ignorar que há vício em um alimento gostoso é achar que o mundo inteiro passou a comer açúcar coincidentemente. É má fé, ignorância no assunto ou teimosia. Estou longe de sugerir que nunca mais se coma açúcar. É praticamente impossível socialmente. Mas você precisa saber de seu custo fisiológico. Deve evitar, limitar seu acesso. Mais do que isso: respeitar. O açúcar é provavelmente mais forte que você. E mais nocivo do que imagina.
*uma das coisas que mais ouvi de um nutricionista burrinho que achou que seu diploma e número de CRN eram evidências de algo, foi que açúcar não pode ser viciante já que nem todos se viciam nele, o que é uma verdade. Pois nem todo mundo se vicia em maconha, cocaína, heroína, cigarro, álcool… Não é preciso que todos se viciem para que algo tenha essa característica.




Para ilustrar seu texto, Danilo.
Imagine uma sociedade onde todas as pessoas são viciadas em uma substância. Quando eu falo todas, são todas MESMO. Essa substância é vendida em qualquer supermercado, farmácia ou loja. Todos têm acesso, inclusive crianças. Essas, vale ressaltar, são expostas à substância pouco depois que nascem, aos 6 meses de idade.
Como todos consomem a substância diariamente, a maioria não percebe seus efeitos deletérios. E muito menos percebem que são viciadas. Na verdade, elas até percebem, mas justificam esses efeitos com a desculpa do exagero ou a frase “Eu paro se quiser. Não sou viciado.”
Profissionais de saúde, médicos e psiquiatras, citam constantemente os resultados de suas pesquisas. Eles afirmam que a substância não causa vício. Tentam provar que a dependência segue determinados padrões, mas no fundo, só justificam o fato deles mesmos não conseguirem parar com o uso da substância, com seu próprio vício.
Mas isso não significa que não haja tentativas de parar. Mas você deve imaginar como isso é difícil. A pessoa que "acorda" como aquele que sai da caverna na Alegoria de Platão, é criticada e rechaçada, julgada louca. “Como assim? Vai parar? Não faça isso! É muito radical.” Ou “Use só um pouco, só hoje.”
Mesmo com toda dificuldade, muitas pessoas dessa sociedade têm conseguido superar o vício. Os sintomas da abstinência aparecem: gosto diferente na boca, dor de cabeça, pensamentos voltados ao uso da substância, desejo, mas a força de vontade é maior. Às custas de muita disciplina, elas param com o uso e reganham o controle.
Algumas param por completo o uso outras param, mas usam de vez em quando. Independente, elas se destacam por serem pessoas mais saudáveis, mais de bem com a vida.
É certo que são vistas com estranheza pelos viciados, mas elas formam seus grupos isolados. Nesses grupos, vistos pelos viciados, como grupos de terroristas, elas trocam idéias, conversam e debatem o não uso da substância. Eles acabam formando guetos, comunidades, são os “diferentes, os excluídos”
Você acha que uma sociedade como essa existe? Se sim, que substância seria essa?
Texto publicado dia 23 de janeiro de 2021 no Instagram
Quem fala que açúcar não vicia é, provavelmente, o mais viciado. Ele não vê o próprio vício e julga quem não usa. Em uma sociedade viciada, aqueles que conseguem sair do vício são os marginais.